Os relatos de quem vê crescer número de crianças desnutridas no Brasil

O caso de Lucas acendeu um alerta dentro da coordenação geral da entidade beneficente, que atende crianças em situação de vulnerabilidade no Brasil desde a década de .

Já no ano passado, mesmo antes da pandemia, a gente vem percebendo que o pessoal equipes nas esferas estaduais está voltando a relatar casos graves de subnutridos , diz à BBC News Brasil o médico Nelson Arns Neumann, coordenador da Pastoral da Criança.

No começo da Pastoral era muito frequente ver crianças de apenas pele e osso, e depois a gente não tinha mais visto isso. Tanto que esses casos novos escalaram rápido para a coordenação nacional, porque as equipes tinham perdido a habilidade de lidar com eles.

Embora o calvário do bebê Lucas — que será contado em mais detalhes ao longo desta reportagem — seja extremo e não represente a situação nutricional geral do país, ele reflete uma piora nas condições de vida das famílias mais pobres. Algo que é respaldado tanto por dados estatísticos quanto pela observação de agentes comunitários, como Maria José, que atua na Pastoral da Criança do Acre há anos.

Esse foi um caso de uma família muito desestruturada, mas, no contexto de pobreza, não acho que seja um caso isolado , diz ela à BBC News Brasil.

Para fetos, bebês e crianças pequenas, essa desnutrição ou mesmo a má nutrição vivenciada no início da vida pode deixar sequelas de longo prazo. Isso porque a ausência da comida muda o metabolismo do corpo infantil, influenciando o funcionamento e o tamanho de órgãos como fígado e coração.

Desde a fome holandesa episódio de , durante a Segunda Guerra, vimos que, quando vivida na gestação, a fome tem efeitos para o resto da vida: os holandeses que nasceram naquela época viviam % a menos, tinham mais esquizofrenia e doenças metabólicas , afirma Arns Neumann.